
Eu ouvia um sopro da terra arraigada
Quando aos ouvidos sussurrava sozinha
Que aquela flor formosa e perfumada
Haveria de ser minha rosa, a rosa minha.
Acontecia então em minha mente
Paralelo um mundo tão diferente
Daquele que realmente existia
Eu, confiante, não um demente
De frustado passei a contente
E não dei espaços à covardia.
Ignorei ao redor essa gente,
Estavas bem à minha frente
Nada e ninguém mais eu queria.
Eis o momento de ser imprudente,
Puxando teu braço e inconsequente
Ver dos teus lábios surgir a magia.
Mas desta realidade fico ausente,
Da minha fraqueza já estou ciente,
Vivo este mundo somente em poesia.
Caio Sereno.
Não acredite que uma manhã de céu nublado
Ou uma noite sem estrelas a desobscurecer
Fizessem do meu posto um lugar abandonado
Estive, estou e sempre irei te proteger.
Por isso se uma dia habitar o desarranjo
Em sua vida, saiba, meu bem, sou teu anjo.
Caio Sereno.
Uma paródia do poema de Vinícius de Moraes, “Soneto de Separação”.
De repente do presente fez-se o passado
Quieto e misterioso como já de costume
E das lembranças um algo não terminado
E dos teus lábios a fonte do meu ardume.
Das poucas árvores em que se ouvia o canto
Pomposas aves cantarolavam assim um grito
Pois já não vinhas alimentá-las com encanto
De teu passar, já rotineiro e tão previsto.
Não entendo se há um porquê no acaso
Deste doce encontro fadado à espera,
De um futuro que pode levar a um caso
E quiçá, por atraso, um algo à vera.
Ai, que saudade eu sinto dessa batucada,
Dos rostos alegres e ruas lotadas,
Das marchas e sambas e o povo a cantar.
Quem dirá que a todo sempre não quis o teu bem, que houve sempre um porém quando eu dizia te amar?
Quem louco será de declarar-me como teu inimigo, que eu nunca quis ser teu real amigo, que eu só quis o teu penar?
Quem fará então teus dias melhores sem mim, que escutará o teu chorar assim quando vieres a sonhar?
Quem poderá dedicar-se como eu só fiz, que quererá a ti como eu só quis, que tudo faria pelo seu olhar?
Quem dará a vida inteira por um beijo teu, que cultivará um amor que feneceu, quando ele estiver a gritar que esse algúem sou eu ?
Caio Sereno.
Meu bem, como és cego, não vês a verdade
Dos tristes afagos que faço em teu rosto,
Um fruto da tua rigidez sobre a vontade
Fazendo o meu mundo girar no oposto.
Acordo pela manhã, e vejo que já é tarde. Tomo o meu café-da-manhã tranquilamente e assisto ao programa de esportes casual desse horário. Mas meu estômago estranha toda essa rotina estapafúrdia, cheia de deslizes e uniformidades, já que se encontra acostumado a horários e vontades regrados. E o Sol já não é mais o mesmo... Ah, não pode ser... Ele fervia toda vez que me avistava. E maltratava-me desde o início daquele dia até o seu sórdido e cansativo final, já aconchegado pela mãe Lua que dava o esperado sossego. Agora? Largou-me de lado para viver a sua vida boêmia irregular, porém que é somente sua.
De Glória só guardo o que quero esquecer. Tudo aquilo que de certo eu fiz um dia e que só trouxe consequências erradas. Quem disse que no final tudo dá certo certamente não conhecia Glorinha. Mas, chega! Sem apegos... Afinal, só de falar seu nome minha mente na sua plena capacidade desvia seu foco e volta-se novamente às lembranças desta mulher que acabou com tudo isso. Aliás, nem isso mais eu tenho. Se penso em mim não consigo pensar em mais nada. E nada, e nada. Eis quem eu sou.