sábado, 21 de setembro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O outro lado da porta
Atrás da porta
No recanto escuro
O cheiro da volúpia tenra me enebria
E me extasia
Controla o meu corpo
Como marionete
Que se intromete
Sem nem saber o porquê
Entrelaçando as vontades
As realidades
Tão próximas e orgânicas
Que derramo o sumo da minha vida
Sobre o sumo da tua
E sumimos numa coisa só
Algo sujo e repugnante
Em ebulição constante
Mas que insiste em deitar na madeira fria
Ao rodapé da porta
Como quem pisa na fronteira do pecado
Querendo arder no fogo
Do teu corpo
Sofrer na tortura
Dos teus vestidos
Um eterno calafrio
Dos teus sussurros
Concedendo a permissão
Do nosso desejo inrustido
De se aventurar no desconhecido
Lá, do outro lado da porta
Onde a luz não entra
Por ter medo de se apaixonar.
Caio Sereno.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Meu bem
Dê-me um sossego
Que já desgosto da tua companhia
Não me traz mais alegria
Ter em ti meu aconchego
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Render-se
Me abraça
Mas abraça forte
Daquele jeito que só você sabe
E não me solta
Mesmo que por alguns segundos
Prometo não fazer contagem
Contar faz o tempo passar mais rápido
E desliza os teus dedos nas minhas costas
Puxando o meu corpo pra bem perto do teu
Pra tentar me levar pra dentro de você
Mesmo que seja impossível
Mas tenta
É tão bom te ver tentar
Contemplar o teu olhar depois disso tudo
Meio perdido
E meio meu
Esperando uma resposta
Mesmo que nunca tenha havido uma pergunta
E mesmo que você queira saber muitas coisas
O segredo da vida
Ou algo mais complicado
Como o que se passa na minha cabeça
Mas se você soubesse, eu juro
Quão frustrada ficaria
Depois de arriscar meio mundo
Não pensaria no óbvio
Que enquanto permaneci te olhando
Hipnotizado
Encantado
Estupidamente magnetizado
Cego
E alucinado
Eu só pensava em você.
Caio Sereno.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Meu porquê
Ouço o teu discurso pacífico
Cheio de interrogações
E recolho o meu desagrado
Achando que é loucura
Alguém pensar como eu
Me reinvento mais uma vez
Como tanto já fiz por você
Chego até a falar coisas que não acredito
Transformo o meu cansaço em compreensão
Te dizendo sim a tudo
Menos a mim
Te pedindo perdão por nada
Menos por mim
Te amando mesmo que seja verdade
Menos para mim
Assim eu amacio o teu travesseiro
E preservo os teus sonhos
Já tão escassos
Porque pode até não parecer
Mas eu só quero o teu bem
Pois ele faz parte do meu também
Sabia?
Às vezes penso que você esquece
E me esquece
Sem nem perceber
E eu me sinto culpado e fico irado
Por estar tão próximo de ti
E me sentir tão só
Ando preferindo a companhia do espelho
Ele sabe da minha tristeza
E até fica triste também
Calado
Porque às vezes o silêncio dele
É a melhor resposta para o meu.
E você aí
Cheio de interrogações
Nunca se perguntou
O porquê de eu estar sempre infeliz.
Caio Sereno.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Amor, sem saber
Era tão bom
Eu não entendia o teu olhar bobo
Você não compreendia o meu sorriso frouxo
E tudo dava tão certo
Eu te abraçava e não ligava pro teu coração disparado
E você também não ligava pro meu
Acho que a gente não pensava nisso
Se é que a gente pensava em alguma coisa
De olhos fechados a mente fica tão quieta
Tão completa
Eu ali
Deslizando o meu rosto sobre o teu
Sentindo os cantos da tua boca
E fugindo às vezes, só pra te provocar
Pra ver com os olhos semiabertos o teu riso
E rir contigo
Na despedida ensaiava um desprezo tolo
Que a gente sabia que era mentira
Mas era gostoso terminar assim
Chegada a noite, eu ficava olhando o telefone
Sabendo que você estaria fazendo a mesma coisa
Só esperando uma mensagem
Uma conversa à toa
Pra não me tirar do teu dia
Antes que a saudade batesse
Sem querer
E te fizesse ceder ao desespero
Não aguentando mais brincar daquilo
Porque no final você sabe
Por mais que a gente se gostasse
E por mais que a gente não se amasse
A gente se amava
Mesmo sem saber.
Caio Sereno.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Metade
Sinto teu cheiro pútrido
Teu aspecto pegajoso
Aqui bem perto de mim
Minhas veias desnutridas
Desse meu sangue frouxo
Pedem socorro
Querem meu corpo feliz
Ou que ao menos meu rosto
Todo cínico e dissimulado
Se abra enfim.
sábado, 4 de maio de 2013
Nossas pernoites – Parte I
A claridade que vinha das luzes que se espalhavam pelas paredes e pelo teto da recepção daquele hotel era inebriante. O chão de mármore branco, exageradamente limpo e opaco, cegava-se com a imponência das lâmpadas amareladas, tão imponentes e autoritárias. Não havia ali um lugar sequer que se banhasse da escuridão ou se isolasse no recanto das pequenas sombras. Parecia que a placidez daquele espaço deveria ser mantida a qualquer custo e que qualquer movimento mais arrojado causaria descontentamento geral. Os hóspedes que ali permaneciam, tinham sorrisos amargados, gestos mal articulados, olhares mal intencionados e vozes roucas e sem efeito. O balcão arrendondado, com tons mais austeros e uma iluminação mais branda, resguardava funcionários com faces retraídas e expressões extremamente frias, destruindo o pouco acalanto que ali existia. E em meio a todo esse ambiente nauseante, na única poltrona vermelha daquele imenso salão, bem perto do abajour quadrado, distraído e reflexivo, eu me encontrava irriquieto, de pernas cruzadas e com um jornal na mão. Aquele pedaço de papel velho guardava notícias que eu nunca li, de um dia que eu não soube, de uma semana que eu nunca vivi.
domingo, 21 de abril de 2013
Anônima
Quando te vi passar
Apressado e sem jeito
Com a barba mal feita
E a camisa amarrotada
A calça manchada
E o penteado desfeito
Acompanhei os teus passos
Descompassados
Tropeçando em falsos
Buracos e degraus estreitos.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Me iludes tão bem
Talvez o maior canalha
Que esse mundo já viu.
Despretensioso,
Preencho o teu gozo,
Destilo algumas palavras bonitas,
Alguns versos decorados,
Te deixo febril.
Mas contigo, irrelevante
Ser esse farsante,
Esse falso amante,
Quando já te amo também.
Me iludes tão bem.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Juramento
Eu juro, e não é demagogia.
Aquele meu desatino,
Tresloucado e pouco fino
Era coisa de agonia.
terça-feira, 2 de abril de 2013
Criança crescida
Escarra o teu veneno sobre a minha dor
Faz do escárnio teu palco
Faz do desprezo um afago
No teu discurso sem sabor.
domingo, 31 de março de 2013
Teu melhor vestido
Olhe nas fotos, amor.
Minha pele fica tão bem na tua.
Por que então que a gente continua
A fingir que eu não caibo em ti?
terça-feira, 26 de março de 2013
Dois cigarros, por favor
O romance na cabeceira ganhava linhas trêmulas. Suas frases, antes tão bem definidas e demarcadas, moviam-se em velocidades imperceptíveis aos seus olhos. Letras deslizavam pelos cantos da folha, pontos escondiam-se atrás dos parágrafos, títulos esmoreciam e precipitavam em direção a um abismo desconhecido, e ao final, sobre o papel branco, encontrava-se somente a poeira que se desprendia do ventilador de teto velho. Nada mais. Era inútil tentar imergir naquela fantasia, fazer parte daquele universo paralelo que residia sobre as suas mãos. Seus pensamentos não vagavam por aquelas terras idealizadas e nem seus problemas se resumiam em saber o que aconteceria no próximo capítulo daquela história. A sua inquietude em nada transparecia a ansiedade de uma leitura qualquer. Ela levava tons de desespero e cheiro de agonia. Mesmo de longe, era possível enxergar a sua respiração ofegante e a desatenção constante para com tudo e para com todos ao seu redor, como se o presente tivesse ficado em segundo plano na sua vida. Tentava formular o seu futuro com atitudes loucas em situações extremas e via nelas a única solução para a sua consternação profunda. Subiria penhascos, conquistaria castelos e mataria dragões se fosse necessário. Tudo valeria a pena se tudo passasse a ser nada. Nada mais. Uma calmaria digna de uma página vazia de um livro aberto. Pronto para ser definido e saber da sua existência, e que contenha, no final, todas as respostas que ele sempre buscou no seu caminho. Enquanto isso não acontecia, procurou o bar mais próximo e pediu ao garçom no balcão com a sua voz rouca e falha:
– Dois cigarros, por favor.
Fumou-os um seguido do outro, saboreando cada tragada forte e lentamente, admirando a fumaça longa que flutuava no ar. Ao menos, por alguns minutos, achou ser o homem mais tranquilo do mundo.
Caio Sereno.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Mandarim
Que há muito me queres
E só pensa em mim
E que não há pessoa
Que a ti será boa
E te faça de festim,
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Você bem poderia fugir agora
Não, eu não queria nem de longe amar você.
Estava tão tranquila essa minha solidão.
Sim, eu sei que a vida só queria entender
Essa vontade louca de negar meu coração.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
A garota do mês de dezembro
Ela me veio com um sorriso amarelo,
Típico de quem nasceu com o verão.
Todo o seu resplendor era disfarçado,
E fazendo-se de cínica e dissimulada
Ela eclipsava toda a sua vastidão.
A sua pele suave, vermelha de urucum,
Tinha cheiro de maresia
E presença de ventania.
Por mais que ela se enublasse,
Com ela o mundo se aquecia.
A garota do mês de dezembro era suicida,
Para ela a vida se acabaria
Na primeira gota a precipitar.
E nessa extrema credulidade,
Ela fazia contagens regressivas,
Baseando-se na prerrogativa
De que o amanhã se perderia no ar.
Não é sua culpa essa mente atrasada,
Logo ela, que já nasceu adiantada,
Perdendo uma hora de respiração.
Hoje, ela reclama da temperatura,
Afirma que o dia muito perdura
E que as sombras não dão mais vazão.
E eu já abrasado, escuto o apelo interno
Desse meu coração de inverno,
Que nunca sabe se neva ou não,
Mas que agora afirma com tanta certeza
Que, ao ver-te, sabe que a sua natureza
É permanecer eternamente na tua estação.
Caio Sereno
sábado, 8 de dezembro de 2012
No dia de minha morte
Num pensamento longíquo, que em mim pouco restou.
Durante o café-da-manhã, encontrarei o teu lugar vazio
E uma xícara de café frio com a marca de batom que ficou.
domingo, 11 de novembro de 2012
O gato preto – Parte II
A aurora recém-chegada já dava outros tons à sobriedade constante da pequena cidade de Vórsea. O horizonte pouco a pouco era rasgado pelos impiedosos raios solares, que invadiam as casas, e na ausência de uma sutileza intrínseca, despertavam todos os habitantes adormecidos. O canto dos pássaros ganhava amplitudes dignas de uma ópera e cruzava os cômodos ocos, abafando até o som compassado dos automóveis e das carroças. Já se ouvia os risos das crianças brincando de pique-esconde, os cumprimentos habituais entre vizinhos que pouco se falavam, o barulho das obras da nova estrada que se liga à capital e os vendedores ambulantes a vender vassouras e panelas. Eu já conseguia distinguir aquela sinfonia e formular em minha cabeça todo aquele panorama matinal. Pouco a pouco, meu corpo dengoso cansava-se daquela inércia e enviava sinais nervosos arrastados à todas as minhas articulações. Com gestos suaves, meus braços e pernas esticavam-se ao nada, como se estivessem digladiando com seres invisíveis, que não sangravam ou gritavam aos meus ouvidos. Sentei-me sobre a cama, e como um bêbado, cambaleei em passos tortos em direção à janela. As cortinas, quentes e esvoaçantes, dançavam nos contornos do meu rosto enquanto eu tomava coragem para enfrentar o lume que vinha de fora. Ao arrastar aqueles pedaços de pano, fui torturado pelo clarão do dia já posto, que ofuscou meus olhos por alguns segundos. Recuperada a visão, enxerguei uma nova Vórsea surgir diante os meus olhos, diferente da cidade fantasma que eu havia contemplado semanas atrás, após o meu encontro com o gato preto.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Criança medrosa
Da melodia que rasga teus ouvidos, ó criança medrosa,
Não preste atenção às notas impiedosas.
Notas tão sarcásticas e julgadoras.
Notas essas que ressoam aos demais e difundem uma inquietação.
Falarão de ti, ó criança medrosa, e terás que ser forte.
Só assim crescerás a ponto de ocupar teu espaço no mundo.
Até lá, finca teus pés nos teus sonhos, no teu interior.
Faz dos teus pensamentos a verdade mais absoluta de todas.
Como consequência, criança medrosa, compreenderão a tua ingenuidade,
Que é mais um misto de bondade com um pouco de eterno,
E verão que por trás da tua face, tão desgastada pelo teu sofrimento tardio,
Há um ser que é feliz, sem grandes causas, meios e fins.
E que não vive à custa do desgosto alheio e da tristeza muda.
Vive pelo dom que lhe foi concedido.
O dom de transbordar a graça.
A vontade de se alimentar do riso.
A necessidade de instigar a alegria.
Ao final do dia, criança medrosa, não temerás mais aos outros.
Nem ao menos temerás a ti mesmo.
Porque não haverá mais conflito.
Muito menos esse teu coração aflito, doido para se refugiar.
E uma nova trilha sonora acompanhará os teus dias.
Dessa vez, o canto acalmará a tua alma.
As notas irão confortar os teus segundos.
E assim, pelo resto dos teus dias, criança, viverás em paz.
Em paz para viver.
Viver o que bem quiser e entender.
Caio Sereno.