O autor adverte que o conteúdo dos textos a seguir pode ser de origem real, imaginária ou onírica. Logo, em se tratando de semelhanças com o cotidiano, os mesmos podem distorcê-lo em intensidade e veracidade dos fatos.
Quando chegou o inverno,
A cigarra morreu, o dia feneceu
E o povo hibernou.
Quando chegou o inverno,
A flor se desprendeu, o céu se escondeu
E a esperança cochilou.
Aquela voz aguda e pontual ecoava por todos os cantos do aeroporto. Crianças correndo por entre as filas de embarque, mulheres gritando júrias de abandono aos maridos e homens exaltados com a plena incapacidade das atendentes, nada parecia interferir na calma e placidez da criatura onipresente daquele aeroporto. Nem mesmo os avisos de voos sendo adiados e cancelados, a tempestade que se aproximava e os loucos que circularam pelas longas pistas demarcadas com tinta branca, nada alterava o tom de normalidade que perpetuava na sua oratória. A mulher que discursava nos alto-falantes devia estar com os olhos vendados e ouvidos tapados, pois a balbúrdia que se instalava era indiferente ao tom das suas palavras. Porém não a mim.
Quando você descobrir, meu bem,
Terei somente tua frieza e teu desdém.
Acharás que sou louco por amar-te assim,
Tão sereno e calado, mas no fundo afim.
O céu transparecia a solidão que se via nas estreitas ruas da pequena cidade de Vórsea. As poucas estrelas que perduravam acesas naquele alto painel sombrio não conseguiam abrilhantar as frias noites de fim de outono, tão monótonas e vazias. Ainda se via espalhado pelo chão o que havia sobrado do festival que ocupou a cidade durante seis dias. Calçadas quase que pintadas de serpentina, apitos perdidos no fundo dos bueiros, adereços quebrados que lotavam as lixeiras públicas e um cheiro azedo de vinho mofado empestiava o entorno por onde as alegorias há pouco haviam passado. Quem por ali mais cedo contemplou o puro magnetismo das formas majestosas dos carros gigantes, não reconhecia que transitava pelo mesmo lugar. De tão colorido e fascinante, agora as ruas de Vórsea repousavam na monocromia da escuridão, em pleno silêncio desértico. Todos pareciam estar hibernando em suas casas, fugindo dos perigos que a vida noturna poderia lhes trazer. Somente os ventos gelados e as lâmpadas de querosene é que ainda continuavam dando movimento àquela pacata cidade. Nem mais se viam os moradores de rua escondidos nos becos, os cães em bandos à procura de comida, os ébrios exaltados, ora tristes e ora alegres, nada. Se um dia já pensaram no cenário do fim de nossa espécie, aquela paisagem que eu observava da minha janela seria o mais fiel para retratá-lo.
Vozes sussurram imperativos
"Tu és louco e sempre serás louco!"
Não há espaço para mentes
"Tu és demente e sempre serás demente!"
Veja a injustiça dos homens, tão bravos,
Escondem-se na sua ignorância
E a sua intolerância rasga mundos inteiros
Pois mundos desfeitos
Não fazem uma revolução.
Lá do alto o vento batia forte em meu rosto, mas eu não me importava com a sua arrogância. Naqueles instantes em que eu flutuava sobre o céu anil eu me sentia dispersa no ar, corajosa em meus giros, confiante em minhas cores e serena por estar presa à tua mão. Teus gestos, tão suaves e amenos queriam sempre mostrar o meu melhor. Tu me colocavas em um pedestal e me expunha à todos os transeuntes “Olhem e percebam quão esbelta e formosa é a minha pipa!”. A minha alegria tocava o infinito quando me elogiavas assim. E eu podia ver em teus olhos, tão claros e desbotados pela luz do Sol, que eles brilhavam. E como brilhavam ao sorriso meu! Brincávamos dia após dia, sem cansar, sem que a tua mão se afrouxasse, que a nossa linha se cortasse, sem que o céu voltasse à sua triste monotonia.
Depois de ver tudo tão plano, Nós nos desmoronando, Enterrando o após. Parti para achar meu acaso, Despertar o atraso Desse tempo em vão. Quero que você seja feliz, Hei de ser feliz, porém
Estradas só terminam em ruas sem saída,
Nelas, meu bem, o amor hão de atropelar,
Pois não é na eternidade que se vive a vida.
Um dia a nossa escolha irá nos vitimar.
Que belo é o sopro do qual te libertas, Preenche a secura do povo descrente. Poeta, teu canto invade minha mente E faz-me enxergar que a beleza por trás
Poucos sabiam o que ali ocorria de fato
Pois nunca se acreditou em final infeliz.
Correr com as próprias pernas e andar descalço,
Desconhecer o chão e se perder nos passos,
Ser de uma hora para a outra dono do meu nariz.
Agora a vida me expulsava da escola,
Sem nunca eu ter deixado de ser aprendiz.
Eu ouvia um sopro da terra arraigada
Quando aos ouvidos sussurrava sozinha
Que aquela flor formosa e perfumada
Haveria de ser minha rosa, a rosa minha.
Desde que a vi pela primeira vez, não houve um dia sequer em que não passei em frente àquela estação de trem. Ainda não sei o que de fato me prendia ali, mas o meu fôlego se esvaia sempre que enxergava os seus muros altos, brancos e iluminados, a sua calçada suja e amarrotada pelos tantos pés que ali já pisaram, o seu letreiro já desgastado, mas que mantinha a mesma imponência de tempos passados. Tudo fazia com que me sentisse parte daquilo de alguma forma, e eu sabia, que em algum momento, eu descobriria o porquê, mas naquele instante, a Estação 174 era somente uma estação de trem.
Tantos foram os gestos, suaves pequenos, Tantos foram os risos, abertos marcantes, Tantas foram em dores, sedutores venenos, Tantas foram em prazeres, insanas amantes.