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Aviso

O autor adverte que o conteúdo dos textos a seguir pode ser de origem real, imaginária ou onírica. Logo, em se tratando de semelhanças com o cotidiano, os mesmos podem distorcê-lo em intensidade e veracidade dos fatos.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A garota do mês de fevereiro

Ela me veio com um sorriso vermelho,
Lábios que sobressaltavam na multidão.
Toda a sua euforia era enebriante
E fazendo-se de louca e delirante
Ela esbanjava a sua satisfação.
A sua face pintada, branca de fantasia
Tinha um quê de alegoria
E beleza de fim do dia.
Por mais que ela se transformasse,
Em mil foliões eu a encontraria.
A garota do mês de fevereiro era otimista.
Para ela, o carnaval não acabaria
Quando chegasse a quarta-feira de cinzas.
E nessa doce ingenuidade,
Ela acordava já com serpentinas
E saldava as ruas banhada em confetes
Para inspirar os corações ranzinzas.
Não é sua culpa esse mente imatura.
Logo ela, nascida de uma aventura
Nos lençóis embriagados de excitação.
Hoje, ela reclama da demora,
Chora em frente ao espelho que outrora
A viu tão colorida e feliz.
E eu já desesperado, sonho com a Colombina
E retorno à minha rotina
Como um Pierrô aprendiz,
Mas que vê solução na tristeza
Pois haverão carnavais com certeza
E ainda hei de ser seu Arlequim.

Caio Sereno.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Querido diário

Querido diário
Folheio as tuas páginas secas
E afasto a poeira com a ponta dos dedos
Por medo de te quebrar
Sigo o movimento das tuas folhas
Como ondas que crescem no cabeçalho
E morrem aos poucos no rodapé
Assim afogo o meu desabafo
Em meio a letras borradas e disformes
Que lutam pra se empalavrar

segunda-feira, 24 de março de 2014

É comum


É comum sonhar com um outro alguém
Que te seja mais que um bem
Que te faça ser algo que se quis
Ser enfim muito feliz

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Mensagem

Quero fugir do teu porto
Sem deixar mensagem
E por qualquer bobagem
Esquecer tua imagem
Quando a saudade vem

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Cada dia mais próxima

Cada dia mais próxima
O teu perfume de chorume já preenche quase toda a minha inalação
Repousando meu peito extenuado
Já farto dos ares daqui
Sinto-me pronto para explorar o infinito do tempo
O sonho eterno de uma mente sem lembranças
As noites infindas de lua eclipsada
E tudo que o teu beijo podre pode me fornecer
É como se eu não pertencesse àqui
E cada passo parecesse estranho aos meus pés
Na certeza da existência de algo melhor

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A cláusula do elevador

(texto extraído do livro Sexo na Cabeça)
Luis Fernando Veríssimo
Porque eram precavidos, porque queriam que sua união desse certo, e principalmente porque eram advogados, decidiram fazer um contrato nupcial. Um instrumento particular, só entre os dois, separado das formalidades usuais de um casamento civil. Nele estariam explicitados os deveres e os compromissos de cada um até que a morte — ou o descumprimento de qualquer uma das cláusulas — os separasse.
      Quando chegaram à parte do contrato que trataria da fidelidade, ele ponderou que a cláusula deveria ter uma certa flexibilidade. Deveria prever circunstâncias aleatórias, heterodoxas e atenuantes. Em outras palavras, oportunidades imperdíveis. E exemplificou.
      — Digamos que eu fique preso num elevador com a Luana Piovani. Depois de dez, quinze minutos, ela diz “Calor, né?”, e desabotoa a blusa. Mais dez minutos e ela tira toda a roupa. Mais cinco minutos e ela diz “Não adiantou”, e começa a desabotoar a minha blusa… O contrato deveria prever que, em casos assim, eu estaria automaticamente liberado dos seus termos restritivos.
      Ela concordou em tese, mas argumentou que a licença pleiteada deveria ser específica, rechaçando a sugestão dele de que se referisse genericamente a “Luana Piovani ou similar”. Ficou decidido que ele estaria automaticamente liberado da obrigação contratual de ser fiel a ela no caso de ficar preso num elevador com a Patrícia Pillar, a Luma de Oliveira ou uma das duas (ou as duas) moças do “Tchan”, além da Luana Piovani, se o socorro demorasse mais de vinte minutos. Isto estabelecido, ela disse:
      — No meu caso…
      — Como, no seu caso?
      — No caso de eu ficar presa num elevador com alguém.
      — Quem, por exemplo?
      — Sei lá. O Maurício Mattar. O Antônio Fagundes. O Odvan…
      — O Odvan não!
      Foi uma negociação longa e difícil, durante a qual ele vetou vários nomes, até ser obrigado a concordar com um, por absoluta falta de argumentos. Ela estaria liberada de ser fiel a ele se um dia ficasse presa no elevador com o Chico Buarque. Mas só com o Chico Buarque. E só se o socorro demorasse mais de uma hora!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Vestida de preto

Lá vem ela vestida de preto
Num negro tão forte que não consigo definir os seus contornos
Dos pés à cabeça, a possibilidade de um imensurável
Tento perceber a leveza dos seus passos, com a inquietude de alguém prestes a ser esmagado
Porém você se faz inaudível
Nem a sua respiração demarca o teu caminho
É como se você nem estivesse ali
Mas eu sei que está
Revele-se
É somente esse o meu pedido
Deixe que eu perceba a fisionomia do teu rosto
Para que eu possa entrar no fundo dos teus olhos
E sorrir com os meus
Eu preciso de você
Da tua essência letal e indescritível
E que me trará paz, eu juro
O mesmo silêncio que você possui e sussurra em tantos ouvidos por aí
E que soará como música nos meus
Eu preciso de você
Prometo não voltar atrás
E ser fiel a você pela eternidade
Mesmo que você goste de contar as horas
E diga que cada segundo é crucial
Mas eu insisto, particularmente hoje, você está linda
Linda como jamais verei enfim.

Caio Sereno.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Bomba relógio

Tic, tac, tic, tac, tic, tac, tac, tac, tactactactactac
Cuidado para não explodir
Inspira bem forte como se fosse o teu último fôlego
Cerra os teus dentes até que desapareçam na boca semiaberta
Força-os que eles não se quebram
Confia em mim
E sente a dor atenuante na face percorrendo os teus músculos rígidos
Juro que não irão se estirar
Faz jus ao teu olhar funesto
E nas tuas olheiras suaves
Põe o o peso de mais uma noite mal dormida
Toca teu peito, no lado direito
Provoca inveja no esquerdo
Aquele que quase você não usa mais
Acredite, você está bem assim
Agora enubla os teus olhos
Esconda a luz dessa realidade
É muito mais bonito assim, não?
E inspira mais uma vez
Como se fosse transcender do teu corpo
E entrar noutro corpo
Ou numa bomba que só queira existir
Mas não demora
Que o tempo é curto
Respirar entedia
E num acesso de raiva ou melancolia
Tudo terá ido embora.

Caio Sereno.

domingo, 10 de novembro de 2013

Verbo ser

Na caixa de sapato empoeirada
Ou nas gavetas emperradas
Em qualquer canto sujo e abandonado
É lá que encontrarás o meu eu
A minha essência inalterada
Aquele pedaço de mim que me orgulhava
E que tanto eu
Quanto você
Gostávamos demais

sábado, 28 de setembro de 2013

Logo ali

Que moço malandro
É esse chegando
Quase vem sambando
No seu caminhar
O seu olhar continua
A deixar-me tão nua
Que me faz encabular
Foi se aproximando
Eu a arrepiar
Já foi me tocando
Num acariciar
E em tudo que ele disse
Pudera incluísse
Que era o seu lugar
Logo ali, logo ali
Logo ali, ai, o meu guri logo ali
Logo ali, eu e meu guri

sábado, 21 de setembro de 2013

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O outro lado da porta

Atrás da porta
No recanto escuro
O cheiro da volúpia tenra me enebria
E me extasia
Controla o meu corpo
Como marionete
Que se intromete
Sem nem saber o porquê
Entrelaçando as vontades
As realidades
Tão próximas e orgânicas
Que derramo o sumo da minha vida
Sobre o sumo da tua
E sumimos numa coisa só
Algo sujo e repugnante
Em ebulição constante
Mas que insiste em deitar na madeira fria
Ao rodapé da porta
Como quem pisa na fronteira do pecado
Querendo arder no fogo
Do teu corpo
Sofrer na tortura
Dos teus vestidos
Um eterno calafrio
Dos teus sussurros
Concedendo a permissão
Do nosso desejo inrustido
De se aventurar no desconhecido
Lá, do outro lado da porta
Onde a luz não entra
Por ter medo de se apaixonar.

Caio Sereno.

terça-feira, 30 de julho de 2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Render-se

Me abraça
Mas abraça forte
Daquele jeito que só você sabe
E não me solta
Mesmo que por alguns segundos
Prometo não fazer contagem
Contar faz o tempo passar mais rápido
E desliza os teus dedos nas minhas costas
Puxando o meu corpo pra bem perto do teu
Pra tentar me levar pra dentro de você
Mesmo que seja impossível
Mas tenta
É tão bom te ver tentar
Contemplar o teu olhar depois disso tudo
Meio perdido
E meio meu
Esperando uma resposta
Mesmo que nunca tenha havido uma pergunta
E mesmo que você queira saber muitas coisas
O segredo da vida
Ou algo mais complicado
Como o que se passa na minha cabeça
Mas se você soubesse, eu juro
Quão frustrada ficaria
Depois de arriscar meio mundo
Não pensaria no óbvio
Que enquanto permaneci te olhando
Hipnotizado
Encantado
Estupidamente magnetizado
Cego
E alucinado
Eu só pensava em você.

Caio Sereno.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Meu porquê

Ouço o teu discurso pacífico
Cheio de interrogações
E recolho o meu desagrado
Achando que é loucura
Alguém pensar como eu
Me reinvento mais uma vez
Como tanto já fiz por você
Chego até a falar coisas que não acredito
Transformo o meu cansaço em compreensão
Te dizendo sim a tudo
Menos a mim
Te pedindo perdão por nada
Menos por mim
Te amando mesmo que seja verdade
Menos para mim
Assim eu amacio o teu travesseiro
E preservo os teus sonhos
Já tão escassos
Porque pode até não parecer
Mas eu só quero o teu bem
Pois ele faz parte do meu também
Sabia?
Às vezes penso que você esquece
E me esquece
Sem nem perceber
E eu me sinto culpado e fico irado
Por estar tão próximo de ti
E me sentir tão só
Ando preferindo a companhia do espelho
Ele sabe da minha tristeza
E até fica triste também
Calado
Porque às vezes o silêncio dele
É a melhor resposta para o meu.
E você aí
Cheio de interrogações
Nunca se perguntou
O porquê de eu estar sempre infeliz.

Caio Sereno.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Amor, sem saber

Lembra de quando a gente se amava sem saber?
Era tão bom
Eu não entendia o teu olhar bobo
Você não compreendia o meu sorriso frouxo
E tudo dava tão certo
Eu te abraçava e não ligava pro teu coração disparado
E você também não ligava pro meu
Acho que a gente não pensava nisso
Se é que a gente pensava em alguma coisa
De olhos fechados a mente fica tão quieta
Tão completa
Eu ali
Deslizando o meu rosto sobre o teu
Sentindo os cantos da tua boca
E fugindo às vezes, só pra te provocar
Pra ver com os olhos semiabertos o teu riso
E rir contigo
Na despedida ensaiava um desprezo tolo
Que a gente sabia que era mentira
Mas era gostoso terminar assim
Chegada a noite, eu ficava olhando o telefone
Sabendo que você estaria fazendo a mesma coisa
Só esperando uma mensagem
Uma conversa à toa
Pra não me tirar do teu dia
Antes que a saudade batesse
Sem querer
E te fizesse ceder ao desespero
Não aguentando mais brincar daquilo
Porque no final você sabe
Por mais que a gente se gostasse
E por mais que a gente não se amasse
A gente se amava
Mesmo sem saber.

Caio Sereno.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Metade

Ó metade estragada de mim
Sinto teu cheiro pútrido
Teu aspecto pegajoso
Aqui bem perto de mim
Minhas veias desnutridas
Desse meu sangue frouxo
Pedem socorro
Querem meu corpo feliz
Ou que ao menos meu rosto
Todo cínico e dissimulado
Se abra enfim.

sábado, 4 de maio de 2013

Nossas pernoites – Parte I

      A claridade que vinha das luzes que se espalhavam pelas paredes e pelo teto da recepção daquele hotel era inebriante. O chão de mármore branco, exageradamente limpo e opaco, cegava-se com a imponência das lâmpadas amareladas, tão imponentes e autoritárias. Não havia ali um lugar sequer que se banhasse da escuridão ou se isolasse no recanto das pequenas sombras. Parecia que a placidez daquele espaço deveria ser mantida a qualquer custo e que qualquer movimento mais arrojado causaria descontentamento geral. Os hóspedes que ali permaneciam, tinham sorrisos amargados, gestos mal articulados, olhares mal intencionados e vozes roucas e sem efeito. O balcão arrendondado, com tons mais austeros e uma iluminação mais branda, resguardava funcionários com faces retraídas e expressões extremamente frias, destruindo o pouco acalanto que ali existia. E em meio a todo esse ambiente nauseante, na única poltrona vermelha daquele imenso salão, bem perto do abajour quadrado, distraído e reflexivo, eu me encontrava irriquieto, de pernas cruzadas e com um jornal na mão. Aquele pedaço de papel velho guardava notícias que eu nunca li, de um dia que eu não soube, de uma semana que eu nunca vivi.

domingo, 21 de abril de 2013

Anônima

Quando te vi passar
Apressado e sem jeito
Com a barba mal feita
E a camisa amarrotada
A calça manchada
E o penteado desfeito
Acompanhei os teus passos
Descompassados
Tropeçando em falsos
Buracos e degraus estreitos.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Me iludes tão bem

Sou cheio de falhas,
Talvez o maior canalha
Que esse mundo já viu.
Despretensioso,
Preencho o teu gozo,
Destilo algumas palavras bonitas,
Alguns versos decorados,
Te deixo febril.
Mas contigo, irrelevante
Ser esse farsante,
Esse falso amante,
Quando já te amo também.
Me iludes tão bem.