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Aviso

O autor adverte que o conteúdo dos textos a seguir pode ser de origem real, imaginária ou onírica. Logo, em se tratando de semelhanças com o cotidiano, os mesmos podem distorcê-lo em intensidade e veracidade dos fatos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Como uma tempestade

Nuvem negra, asfalto molhado, cisco no olho.
Nem as folhas dançando com o vento
Ou o céu amedrontado por cada trovão,
Nada compunha o teu prenúncio
Naquela tarde de domingo azul.
Sorrateira, percebi a luz encobrir-se de ti
Pouco a pouco
E jurei ser apenas o início de mais uma noite,
O espetáculo diário da nossa rotação,
E me arrepiei da cabeça aos pés de excitação.
Quando eu te vi pela primeira vez,
Não soube, de imediato, decifrar o teu jeito
Enevoado e melancólico,
Como quem leva consigo um rio
E chora para não transbordar.
Eu só me aproveitava do teu aconchego regado
E tomava banho de chuva
Sem medo de me resfriar.
Nos teus ventos, virava meu guarda-chuva do avesso
Percebendo que eu havia me virado também
E sutil e simplesmente
Descobrir ser esse o meu melhor lado.
Apreciava as luzes da cidade se apagando
Como se o teu canto rouco
Melódico e estrondoso
Fosse um canto só para mim.
Como uma tempestade,
De repente,
Não mais que de repente,
Você desapareceu.
Debruço-me na janela adorando o orvalho,
Que é um lembrete de que você passou por lá
Tão brevemente, mas que se fez presente
Com teu cheiro molhado a se dispersar.
Ando acordando meio tristonho
Ao perceber a claridade lá fora se perpetuando
Sem saber se essa dor que eu carrego no peito,
Que esquenta e não resseca,
Que só aumenta e nunca cessa,
É saudade ou pneumonia.

Caio Sereno.

domingo, 18 de dezembro de 2016

A garota do mês de outubro

Ela me veio com um sorriso borrado,
Típico de quem manchou o copo de batom.
Toda a sua natureza era embriagada,
E fazendo-se de tonta e descuidada,
Ela embebedava toda a minha razão.
A sua pele suada, salgada de fim de dia,
Tinha uma entrega que se enfraquecia
E um cheiro que entorpecia.
Por mais que ela se misturasse,
Dela sempre o mundo se lembraria.
A garota do mês de outubro era dividida.
A incerteza da sua chegada fria
Se confundia no meu interior a queimar.
E nessa intrínseca dualidade,
Ela amargava todas as minhas expectativas,
Justificando sua sede expressiva
Numa sobriedade de se admirar.
Não é sua culpa essa mente desfigurada,
Logo ela, que já nasceu engarrafada,
Enclausurada numa eterna escuridão.
Hoje, ela se diz indisposta
E afirma não ter nenhuma resposta
Que explique a sua involução.
Eu, já alcoolizado, imerso no teu vício,
Sou sujeito ao seco sacrifício
De esquecer o teu paladar.
E no copo, beirando quase o seu fundo,
Permanece o desejo mais profundo
De um dia de ti eu me embebedar.


Caio Sereno.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Uma doença

Em mim habita uma doença
Çádica e consumidora.
Rastejando pelo meu esôfago,
Goza plena a sua existência.
Ci a perguntarem o que é,
Éla falará de malgrado,
Domando todos os seus sintomas.
Máscaras tomarão teu rosto,
Tolindo o negro das minhas olheiras.
Rasgo teus diagnósticos, doença,
Çabes bem que não te gosto enfim.
Fimdando a noite, sei que tu retornas
Nas manhãs, deitando-se sobre mim.
Mimnha culpa é abraçar-te junto ao peito
Tomando-te sempre como órgão vital.
Talvez eu goste dos teus carinhos
Nhos beijos gélidos de solidão.
Dão eles o conforto do sono sadio
Di outra noite que tarda em acabar.
Barsta que dês um estalo,
Logo tu me terás em sua posse.
Sse engana, porém, quem me ver feliz.
Lizpero diariamente deixar meu corpo,
Podendo, enfim, mostrar que eras tu
Tudo aquilo que me fez ser assim.

Caio Sereno.

domingo, 15 de maio de 2016

Sozinha

Por que me deixaste tão sozinha
À tua promessa, fissurada 
Tornaste enevoadas
Minhas manhãs sorrindo
Te descobrir partindo
Virou meu passatempo
Querer-te a contratempo
E perceber

Que a voz lá dos teus sambas me acarinha
Surge e me trespassa inteira
Mas guardo minhas bobeiras
Seguindo teu protocolo
E castigar-me a açoite e de branquinha
Ficarei sem reparo
Ignorar o coro
De quem implora o fim

Sonhar nosso casebre, e na cozinha
Facas, uma tábua e o azulejo
Temperar teu desejo
E ser tua receita
Me aquecer à beça e com farinha
Untar teu corpo inteiro
E exibir teus cheiros
Só em mim

Tornar os meus enfeites teu deleite
Na beleza que esmiuçaste
Do peito que já choraste, relembrar
Ao teu coração perdido
Poder ser recolhido
Pelo meu pra sempre
E que o futuro centre as entrelinhas
No amor que tu continhas
E nunca ter sabido.

Caio Sereno.

Paródia da música "Uma Canção Desnaturada", de Chico Buarque.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A história de uma merda

De todas as merdas, ela foi a mais barulhenta
Tua queda, ovacionada pelos fungos e bactérias, era a coisa mais interessante que passava por ali em horas
Uma luz naquela atmosfera inerte e obscura
Microrganismos de várias espécies se amontoavam para acompanhar o aspirante a hospedeiro
O vaso sanitário mais parecia um coliseu, com o guerreiro a flutuar nas águas plácidas daquele lago transparente
Ao mesmo tempo, as paredes frias ferviam com a agitação daqueles seres imperceptíveis ao olho nu
Havia praticamente uma competição de quem seria o melhor parasita
Afinal, todos se achavam mais dignos que a merda
Fétida, disforme e ainda por cima egoísta!
Brincando com tantos corpos por aí. Abandonando-os no seu momento de criação.
Morte à esposa dos intestinos e amante dos esgotos!
Mal se ouvia o que aquela multidão externava
Gritos que mais pareciam sussurros
"Joga pedra na merda, joga bosta na merda!"
As ofensas eram quase que harmoniosas
"Ela é boa de boiar, ela é boa de sumir!"
Como versos de uma canção qualquer
"Ela sai de qualquer um, maldita merda!"
A merda, estática, assistia tudo sem esboçar nenhuma reação
Afinal, ela tinha plena noção do que era, das merdas que a levaram a agir como ela agiu
E que somente os corpos sujos, infectados pela sua sujeira, poderiam falar dela assim
Cínicos, procariotos fingiam apreço. Debochados, eucariotos encenavam respeito
Quando a merda passava, circulando por toda a porcelana, provocava uma onda de silêncio
Ninguém era evoluído suficiente para agir melhor que um pedaço de excremento
Na sua despedida, seguindo o seu caminho por entre os canos, a merda ainda não compreendia: por que tanta gente que não é merda, com tanta merda a julgaria?
Criaturas que morreriam se achando reis e rainhas daquele ecossistema.
Nesse instante, a tampa da privada se fechava.
Desde então, pouco importava para a merda as criaturas que viviam ali. Na verdade, ela até achava graça de mais essa tentativa falha de imergi-la em meio àquela escuridão.

Inspirado em um motivo secreto.

Caio Sereno.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Te perdoo

Te perdoo
Pelo amor em que te afundas
Que em cenas tão imundas
Não se desfaz
Te perdoo
Por sonhares em vão
Por querer sempre mais

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Seu porquê

Ouço o teu discurso de censura
Cheio de arguições
E revelo o meu outro lado
Certo de ser loucura
Alguém pensar como você
Me afasto mais uma vez
Como tanto já fiz de você
Chego até a estranhar o que há tanto eu sinto
Transformo a minha saudade em medo
Te dizendo nada sobre tudo
Mesmo que sobre mim
Te pedindo um apoio silencioso
Mesmo que você não queira assim
Te amando ainda que se esvaia a vontade
Que eu sei não ter fim
Assim, eu finjo estar inteiro
E preservo os teus sorrisos
Já tão escassos
Porque pode até não parecer
Mas eu só quero ser feliz também
Melhor ainda se estamos de bem
Sabia?
Às vezes parece que você esquece
Que a gente se parece
Sem ao menos querer
E eu me vejo ofendido e não acho ser tão parecido
Quando estou bem próximo a ti
E agradeço por estar só
Ando preferindo a companhia do espelho
Ele sabe da minha alegria
E até sorri de volta para mim
Calado
Porque a sua semelhança acolhedora
Foi tudo o que você não me cedeu
E você aí
Cheio de arguições
Sempre se perguntando
O porquê de eu ser o que eu quis.

Caio Sereno.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A garota do mês de fevereiro

Ela me veio com um sorriso vermelho,
Lábios que sobressaltavam na multidão.
Toda a sua euforia era enebriante
E fazendo-se de louca e delirante
Ela esbanjava a sua satisfação.
A sua face pintada, branca de fantasia
Tinha um quê de alegoria
E beleza de fim do dia.
Por mais que ela se transformasse,
Em mil foliões eu a encontraria.
A garota do mês de fevereiro era otimista.
Para ela, o carnaval não acabaria
Quando chegasse a quarta-feira de cinzas.
E nessa doce ingenuidade,
Ela acordava já com serpentinas
E saldava as ruas banhada em confetes
Para inspirar os corações ranzinzas.
Não é sua culpa esse mente imatura.
Logo ela, nascida de uma aventura
Nos lençóis embriagados de excitação.
Hoje, ela reclama da demora,
Chora em frente ao espelho que outrora
A viu tão colorida e feliz.
E eu já desesperado, sonho com a Colombina
E retorno à minha rotina
Como um Pierrô aprendiz,
Mas que vê solução na tristeza
Pois haverão carnavais com certeza
E ainda hei de ser seu Arlequim.

Caio Sereno.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Querido diário

Querido diário
Folheio as tuas páginas secas
E afasto a poeira com a ponta dos dedos
Por medo de te quebrar
Sigo o movimento das tuas folhas
Como ondas que crescem no cabeçalho
E morrem aos poucos no rodapé
Assim afogo o meu desabafo
Em meio a letras borradas e disformes
Que lutam pra se empalavrar